Queridíssimos amigos,
Alguns sabem, outros nao tinham nem ideia, mas eu cheguei do Chile ontem de manha, no aviao da FAB.
Dia 15 de fevereiro embarquei rumo a Santiago para uma viagem de 12 dias de férias. Foi linda, visitei cidades charmosas, passei por Vichuquén, Concepción, Curicó, Talca, Pucón, Villarica, Valdivia, Puerto Varas, Puerto Montt, Chiloé, Valparaíso, Viña del Mar e Reñaca, e no dia em que a terra literalmente tremeu eu estava em Reñaca, uma cidade na costa que fica a 1km de Viña.
Às 2h30 da manha fui dormir e 1h depois acordei sobressaltada com o terremoto. Foi uma sensaçao que nunca havia vivido na vida, e na verdade eu nem entendia o que estava acontecendo. Tudo tremia, a cama quicava, e eu olhei pela janela e vi um clarao, mas nao ouvi estrondo nenhum. Pensei que fosse uma bomba, que estavam invadindo o prédio, nao entendia nada, tudo tremia, os alarmes dos carros dispararam, todos foram para a varanda, ouvia gritos, choros, um horror.
Consegui saltar da cama e perguntar para o meu amigo, chileno, dono da casa onde estava, o que estava acontecendo:
- Tomás, que pasa?
- Es un temblor, Carol, creo que es un terremoto!
- Terremoto?
Fiquei desesperada, achei que o prédio ia desabar... Foram os dois minutos mais intermináveis da minha vida. Estava tudo escuro, porque nao havia mais luz, mas consegui colocar uma calça jeans por cima do pijama, colocar um casaco e uma Havaianas, peguei a minha bolsa que estava ao lado da cama com passaporte, dinheiro e, claro, minha camera de fotos.
Descemos correndo pelas escadas, estávamos no segundo andar. Na frente do prédio todos os vizinhos se encontraram. Senhoras enroladas em edredons (fazia frio pela noite, mas de manha era quente, nenhum dia de chuva!), um homem com uma garrafa de uísque na mao, outras com laptop, e a maioria como eu, com os olhos arregalados, sem entender nada, sem saber se ia acontecer um novo tremor, o que ia ser dali pra frente?
Ficamos uns 40 minutos lá embaixo do prédio até que muitos começaram a voltar para suas casas. Os celulares nao pegavam, todos queriam ligar para parentes para saber onde estavam, se estavam bem, a gente nao tinha nocao de como estava o resto do país, uma sensacao bem estranha.
Subimos quase todos para tentar dormir de novo, mas era impossível. Deitada na cama eu sentia tremores constantemente, e lá pras 9h40 um novo terremotinho um pouco mais brando aconteceu, e a sensacao de impotência e de dúvida era grande. Nada podíamos fazer, nao sabíamos se viria coisa pior, se novos teremotos fortes como o que houve iriam acontecer, mas aos poucos a vida foi "voltando ao normal".
Acordei umas 10h, a cidade ainda era fantasma, conseguimos comprar umas empanadas para comer de café da manha e lá pras 14h é que consegui fazer o primeiro contato com o Brasil e dizer que eu estava viva e que nada tinha acontecido.
A essa hora as notícias aqui no Brasil eram as piores possíveis, e claro que a televisao só mostrava Concepción, uma das cidades que mais foi destruídas, mas minha família nao sabia a situacao de Viña del Mar e, claro, queria ouvir minha voz, saber se eu estava viva. Pois consegui fazer o contato e minha mae quase morreu, de alegria, e eu pude contar que estava tudo bem onde estava...
Depois disso seguimos de volta para Santiago pois onde estavámos havia risco de tsunami, e a melhor coisa era ir para o centro, pra capital, pois lá havia água e luz na casa desse meu amigo, e em Reñaca (casa de praia dele) tudo foi cortado.
Pegamos uma estrada alternativa, pois ouvíamos no rádio quais os caminhos que estavam bem e quais estavam com problemas, e fiquei em Santiago, a salvo, de sábado de tarde até quarta-feira agora, dia em que pude voltar ao Brasil, minha terra querida salve e salve idolatrada!
Bom, este é um breve resumo do que aconteceu no fatídico dia.
Nao desejo essa sensacao nem para o meu pior inimigo, é terrível, você nao sabe se vai acabar, se vai ter outro mais forte, se o prédio vai desabar, é ridículo!Que bom que tudo acabou bem, mas realmente a situacao dos chilenos que perderam tudo é de chorar! E o movimento no país para ajudar as vítimas é fortíssimo.
As televisoes nao param de anunciar contas correntes para pessoas depositarem dinheiro, avisam de depósitos para doacao de alimentos e roupas, enfim, será terrível reconstruir o país...
Mas sexta-feira que vem, dia 12 de março, completo 29 veroes, e acho que tenho que comemorar à altura, ainda mais que sou uma sobrevivente! Nao sei ainda o que farei, ainda estou um pouco atordoada e confesso que nao aguento mais falar sobre terremoto.
A sensacao de chegar em casa e poder dormir em uma cama que nao treme nunca é indescritível, e o que mais tenho feito desde que cheguei é descansar, pois até agora estou meio zonza, e voltar em um aviao de FAB durante 6 horas de voo me deixou um pouco surda, e estou ouvindo um zumbido louco que nao pára... enfim, mas entre mortos e feridos, aqui estou!
Agradeço às pessoas que se preocuparam comigo, que mandaram e-mail e ligaram aqui para casa, obrigada pela lembrança, mas nao foi desta vez!!!
Beijos mil, loviu para todos!
Carol.
2 comentários:
Caraca! Bem que você disse, Alê... que não conseguia falar com a Carol. Que bom que ela voltou pra cá, onde a terra não treme... só o coração que bate mais forte às vezes, mas por coisas menores.
Caraca! Bem que você disse, Alê... que não conseguia falar com a Carol. Que bom que ela voltou pra cá, onde a terra não treme... só o coração que bate mais forte às vezes, mas por coisas menores.
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